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Falar sobre mobilidade urbana é levantar um tema complexo e polêmico. Apenas arranhamos esse debate com as matérias desta edição. Ficar no exemplo de Curitiba para debater o transporte público nas grandes cidades brasileiras já é um lugar-comum. Entretanto, nem ali há unanimidade em torno do tema, uma vez que há muita gente que não se conforma em pagar mais por esse serviço do que pelo transporte privado, de carro ou de moto. Segundo um estudo da Associação Nacional de Transportes Públicos, o usuário de ônibus em Curitiba gasta até três vezes mais do que os que utilizam carro ou moto.
Há muitas cidades brasileiras em que isso se repete, embora na média nas 27 capitais brasileiras e nas 16 cidades com população acima de 500 mil habitantes o ônibus tenha custo mais baixo do que o carro e, ainda assim, mais caro do que a moto. Mas, segundo Nélio Schneider, essa conta não fecha de jeito nenhum quando se considera o investimento absurdo na compra do carro e em sua manutenção. Como diz o gaúcho, “o facão cai da mão” de vez quando se olha para o custo ambiental do transporte individualizado.
No outro lado da ponta está o amor quase romântico que o brasileiro tem pelo carro. Essa paixão, que foi até tema de propaganda, chega a fazer o brasileiro privar a família do básico para ter um carango na garagem. Com redução de IPI e outras facilidades, é muito fácil comprar um carro no Brasil, um símbolo de empoderamento incontestável. O difícil é achar um lugar para ele no crescente caos urbano, dominado pelas carruagens de lata. O megaengarrafamento de São Paulo no dia 10 de junho (293 km) dá a dimensão do futuro iminente. Segundo os especialistas, a cidade deve travar em quatro anos e o colapso total virá em nove.
Enquanto formos empurrando o problema com a barriga, a crise se agrava e o direito de ir e vir transforma-se num suplício. Ao mesmo tempo, os mais lúcidos apontam para soluções bem longe das ruas, como, por exemplo, a ideia de que mobilidade urbana se resolve com aluguel barato, que nos faça morar tão perto do trabalho que possamos ir a pé ou de bicicleta. De qualquer forma, ainda há muito a ser feito.
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